quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
A despedida
Eu tinha na altura cerca de 17 anos, era uma manhã de segunda-feira, tão normal como todas as outras, dia de aula, e a primeira da semana era de português. Lá estávamos nós à espera da professora Marta. Apaixonada pela profissão, a sua vida era o ensino, todos gostávamos das suas aulas, ela sabia mesmo como nos cativar. Com ela as aulas eram sempre participadas pelos alunos, não era daquelas professoras que só falavam e davam a matéria, ela gostava de ouvir o que nós tínhamos pra dizer.
Já passavam 10 minutos do início da aula e ela ainda não tinha chegado, isso era estranho pois ela nunca se atrasava. Quando finalmente chegou, vinha calada e com um semblante pesado, nem parecia a mesma. Deu-nos os bons dias do costume e foi logo passando à aula, "deve ser do atraso", pensei eu.
- Hoje vamos fazer uma redação, com o tema "Despedida". Estas foram as suas únicas palavras, depois fitou-nos com um olhar perdido e melancólico. Toda a turma baixou a cabeça para começar a redação. De repente entrou alguém na sala.
- Bom dia, sou a professora Ana, venho substituir a professora Marta... Antes que pudesse dizer mais alguma coisa alguém, não me lembro bem quem, perguntou-lhe pela professora Marta. A sua resposta foi mais assutadora que dolorosa: "A professora Marta faleceu ontem, e eu venho substituí-la durante o resto do período"...
Última visão
Ele estava literalmente a beijar o asfalto quando recuperou os sentidos, não sentia dores, somente uma enorme sensação de alívio, que mais do que depressa associou à sua condição geral, dada as circunstâncias do aparatoso acidente que acabara de sofrer. Lembrava perfeitamente do momento em que perdera o controlo do carro. "Que grande susto!", pensou.
Levantou-se sem olhar à sua volta e sem ser necessário o menor esforço. "Quase que estou pronto pra outro!", disse para sí mesmo, enquanto apalpava o corpo à procura de pontos doridos. Nada, não lhe doía absolutamente nada.
De repente sons de buzinas, sirenes, bombeiros, ambulâncias, curiosos, o cheiro da borracha queimada no ar, deu finalmente conta de que estava cercado por uma multidão de pessoas. Voltou-se para ver para onde todos olhavam. Viu o seu corpo deitado numa poça de sangue, no preciso momento em que um policial lhe cobria com um lençol branco.
Vultos na multidão
E neste mar de gente, que todos os dias passam por mim, vejo-me a mim próprio na minha solidão, distante de tudo, sem comunicação com o mundo exterior, sem coragem para abordar quem quer que seja, parado, simplesmente parado.
Este meu mundo é um lugar estranho, consigo estar completamente sozinho, rodeado de milhares de pessoas. A isso costumo chamar de "solidão acompanhada", partilharia isso com alguém se pudesse.
Nesta estação de comboios, todos os dias, arrepio-me só de pensar em falar com alguém, dirigir a palavra, puxar um dedo de conversa, perguntar as horas, talvéz um dia consiga. Nesta estação de comboios, onde estou eternamente preso, sozinho no meu mundo, a olhar para aqueles que não conseguem, ou não me querem ver, espero ter um dia a coragem que não tive em vida.
A morte é um lugar estranho...