Rostos, centenas, milhares, milhões de rostos passam por mim todos os dias, alegres, apressados, cansados, por vezes irados com algo. Não falam, não cumprimentam, contornam-se uns aos outros, de forma tão rítima como num bailado. Não se olham, não se tocam, simplesmente caminham, cada um no seu próprio mundo.
E neste mar de gente, que todos os dias passam por mim, vejo-me a mim próprio na minha solidão, distante de tudo, sem comunicação com o mundo exterior, sem coragem para abordar quem quer que seja, parado, simplesmente parado.
Este meu mundo é um lugar estranho, consigo estar completamente sozinho, rodeado de milhares de pessoas. A isso costumo chamar de "solidão acompanhada", partilharia isso com alguém se pudesse.
Nesta estação de comboios, todos os dias, arrepio-me só de pensar em falar com alguém, dirigir a palavra, puxar um dedo de conversa, perguntar as horas, talvéz um dia consiga. Nesta estação de comboios, onde estou eternamente preso, sozinho no meu mundo, a olhar para aqueles que não conseguem, ou não me querem ver, espero ter um dia a coragem que não tive em vida.
A morte é um lugar estranho...
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