segunda-feira, 17 de março de 2008
O Pedido
Muitas pessoas acreditam que quando se deseja algo de forma fervorosa e contínua, isto acaba por acontecer. Pode ser que seja verdade, mas na maioria dos casos, a única coisa que existe é uma falsa esperança, baseada numa crença irreal, e nem sempre os desejos são tão bons como se espera.
Já há muito tempo que o Sr. António procurava algo que parecia impossível de descobrir: a verdade sobre a vida após a morte, tentara todos os meios e métodos, desde bruxaria a religião, mas não se contentava com nenhuma das respostas que lhe eram dadas. Ele acreditava que no mundo existiria alguém capaz de lhe mostrar o que há para além da morte.
Certo dia um homem desconhecido lhe bateu à porta dizendo ter a resposta para a pergunta que tanto lhe consumira durante tantos anos: o que há para além da morte. Confiante o Sr. António convidou o homem a entrar e lhe fez formalmente a pergunta: “então diga-me lá o que há para além da morte”. “Você deseja mesmo saber?”, perguntou o estranho. “Sim!”, respondeu ele. “É que a resposta tem um preço muito elevado!”, indagou o estranho. “Pago tudo o que o senhor quiser cobrar!”, respondeu confiante o Sr. António. “Que assim seja!”, exclamou o estranho. De seguida o Sr. António caiu no chão e ouviu uma voz que parecia sair da sua própria cabeça a dizer: “Aquilo que existe para além da morte, só aos mortos é permitido conhecer!”, o Sr. António teve uma parada cardíaca e uma morte imediata.
O seu pedido foi satisfeito, mas será que valeu a pena pelo preço cobrado? Nunca saberemos, e para falar a verdade: nem tenho curiosidade em saber!
terça-feira, 4 de março de 2008
segunda-feira, 3 de março de 2008
O Ruído
Certa noite, ao voltar do trabalho ouvi um ruído estranho, parecido com garras a arranhar a porta da cave da casa mesmo ao lado da minha, “nem sequer sabia que a vizinha tinha um cão!”, lembro eu de ter pensado, como se estivesse a falar comigo mesmo. Mal entrei em casa o barulho parou.
Na noite seguinte voltou a acontecer o mesmo, “raio do cão, qualquer dia leva uma paulada...”, pensei eu nesta noite, nós normalmente temos pouca paciência para com os outros, mas a verdade é que logo ao entrar em casa, o barulho novamente parou.
E assim continuou durante duas semanas. Parecia que o bicho queria atenção, e sempre que alguém passava em frente à casa, lá começava ele a arranhar a porta da cave.
No Sábado seguinte a vizinhança acordou com um alvoroço fora do comum para aquela pacata zona: polícia, bombeiros, ambulâncias, uma azafama tal que parecia ter sido tirada de um filme de acção americano. Todos os vizinhos estavam na rua, como se tivessem que responder a um cartão de ponto, eu não poderia faltar, afinal de contas a confusão era mesmo ao lado da minha casa. Corri para a janela mais próxima do acontecimento, de forma a ter uma visão única sobre a situação.
Ficamos todos aterrorizados quando foi retirado o corpo, já em decomposição, da dona da casa, uma senhora idosa que, segundo dito pela polícia, morrera sozinha na sua cave já há duas semanas, em resultado de uma queda nas escadas. A primeira vez que o ruído foi ouvido, era ela a pedir ajuda, das vezes seguintes, era o seu espírito a pedir paz.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
A despedida
Eu tinha na altura cerca de 17 anos, era uma manhã de segunda-feira, tão normal como todas as outras, dia de aula, e a primeira da semana era de português. Lá estávamos nós à espera da professora Marta. Apaixonada pela profissão, a sua vida era o ensino, todos gostávamos das suas aulas, ela sabia mesmo como nos cativar. Com ela as aulas eram sempre participadas pelos alunos, não era daquelas professoras que só falavam e davam a matéria, ela gostava de ouvir o que nós tínhamos pra dizer.
Já passavam 10 minutos do início da aula e ela ainda não tinha chegado, isso era estranho pois ela nunca se atrasava. Quando finalmente chegou, vinha calada e com um semblante pesado, nem parecia a mesma. Deu-nos os bons dias do costume e foi logo passando à aula, "deve ser do atraso", pensei eu.
- Hoje vamos fazer uma redação, com o tema "Despedida". Estas foram as suas únicas palavras, depois fitou-nos com um olhar perdido e melancólico. Toda a turma baixou a cabeça para começar a redação. De repente entrou alguém na sala.
- Bom dia, sou a professora Ana, venho substituir a professora Marta... Antes que pudesse dizer mais alguma coisa alguém, não me lembro bem quem, perguntou-lhe pela professora Marta. A sua resposta foi mais assutadora que dolorosa: "A professora Marta faleceu ontem, e eu venho substituí-la durante o resto do período"...
Última visão
Ele estava literalmente a beijar o asfalto quando recuperou os sentidos, não sentia dores, somente uma enorme sensação de alívio, que mais do que depressa associou à sua condição geral, dada as circunstâncias do aparatoso acidente que acabara de sofrer. Lembrava perfeitamente do momento em que perdera o controlo do carro. "Que grande susto!", pensou.
Levantou-se sem olhar à sua volta e sem ser necessário o menor esforço. "Quase que estou pronto pra outro!", disse para sí mesmo, enquanto apalpava o corpo à procura de pontos doridos. Nada, não lhe doía absolutamente nada.
De repente sons de buzinas, sirenes, bombeiros, ambulâncias, curiosos, o cheiro da borracha queimada no ar, deu finalmente conta de que estava cercado por uma multidão de pessoas. Voltou-se para ver para onde todos olhavam. Viu o seu corpo deitado numa poça de sangue, no preciso momento em que um policial lhe cobria com um lençol branco.
Vultos na multidão
E neste mar de gente, que todos os dias passam por mim, vejo-me a mim próprio na minha solidão, distante de tudo, sem comunicação com o mundo exterior, sem coragem para abordar quem quer que seja, parado, simplesmente parado.
Este meu mundo é um lugar estranho, consigo estar completamente sozinho, rodeado de milhares de pessoas. A isso costumo chamar de "solidão acompanhada", partilharia isso com alguém se pudesse.
Nesta estação de comboios, todos os dias, arrepio-me só de pensar em falar com alguém, dirigir a palavra, puxar um dedo de conversa, perguntar as horas, talvéz um dia consiga. Nesta estação de comboios, onde estou eternamente preso, sozinho no meu mundo, a olhar para aqueles que não conseguem, ou não me querem ver, espero ter um dia a coragem que não tive em vida.
A morte é um lugar estranho...